O Dízimo é Obrigatório para os Cristãos Hoje? O que a Bíblia Ensina


Introdução

À luz das passagens bíblicas analisadas neste artigo, a resposta é não. O Novo Testamento não apresenta o dízimo, conforme estabelecido na Lei de Moisés, como uma obrigação para a Igreja. Isso, porém, não significa que o cristão esteja desobrigado de contribuir para a obra de Deus. Pelo contrário, a Nova Aliança reafirma a responsabilidade de sustentar o ministério, cuidar dos necessitados e contribuir com generosidade. A diferença é que essa contribuição deixa de estar fundamentada em uma obrigação legal e passa a ser uma resposta voluntária à graça de Deus revelada em Cristo.

Essa conclusão pode causar estranheza, principalmente porque o tema é debatido há muitos anos entre diferentes tradições cristãs. Há quem defenda que o dízimo continua sendo obrigatório para todos os crentes, enquanto outros entendem que essa prática estava vinculada à antiga aliança e ao sistema religioso de Israel.

Para compreender como essa conclusão é construída, é necessário acompanhar o desenvolvimento do tema ao longo das Escrituras, observando o propósito do dízimo desde os patriarcas, passando pela Lei de Moisés, pelos profetas e chegando ao ensino de Jesus e dos apóstolos.


O dízimo surgiu antes da Lei de Moisés

Um dos argumentos mais utilizados para defender a continuidade do dízimo é o fato de sua prática existir antes da entrega da Lei.

A primeira referência bíblica encontra-se em Gênesis 14:18-20, quando Abraão retorna da batalha em que libertou Ló e encontra Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Em reconhecimento à vitória concedida por Deus, Abraão entrega a ele a décima parte dos despojos.

Esse episódio é significativo porque acontece muitos séculos antes da Lei de Moisés. Não havia, naquele momento, qualquer mandamento determinando que Abraão entregasse o dízimo. Seu gesto é apresentado como um ato espontâneo de gratidão e reconhecimento da soberania de Deus.

Outro exemplo aparece em Gênesis 28:20-22. Após receber as promessas do Senhor em Betel, Jacó faz um voto dizendo:

"De tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo."

Assim como ocorreu com Abraão, não há qualquer ordem divina estabelecendo essa prática. Jacó assume esse compromisso voluntariamente como resposta à fidelidade e à provisão de Deus.

Esses dois relatos demonstram que o dízimo existia antes da Lei de Moisés. Entretanto, eles não estabelecem um mandamento universal para todos os crentes. Ambos descrevem atos voluntários de adoração, gratidão e fé, e não uma obrigação imposta por Deus.


A instituição do dízimo na Lei de Moisés

O cenário muda completamente com a formação da nação de Israel.

Aquilo que anteriormente aparecia como uma prática voluntária passa a integrar oficialmente a Lei dada por Deus ao Seu povo.

Em Levítico 27:30-33, o Senhor declara que o dízimo pertence a Ele, abrangendo tanto os produtos da terra quanto os rebanhos. Posteriormente, Números 18:21-24 explica que essa contribuição era destinada ao sustento dos levitas, separados para o serviço do tabernáculo e que, diferentemente das demais tribos, não receberam herança territorial.

Além disso, o dízimo também desempenhava uma importante função social.

Em Deuteronômio 14:22-29, Deus determina que parte dessa contribuição fosse utilizada para atender levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas. Dessa maneira, o dízimo não sustentava apenas o culto ao Senhor, mas também contribuía para o cuidado dos mais necessitados da comunidade.

Esse contexto mostra que o dízimo fazia parte da estrutura da antiga aliança. Ele estava diretamente ligado ao sacerdócio levítico, ao templo e à organização religiosa e social da nação de Israel.

Essa observação será fundamental para responder à pergunta central deste artigo. Se o dízimo fazia parte do sistema estabelecido para Israel sob a Lei de Moisés, é natural perguntar: essa obrigação permaneceu inalterada após a vinda de Cristo e o estabelecimento da Nova Aliança?


A repreensão dos profetas

Outro argumento frequentemente utilizado para defender a obrigatoriedade do dízimo encontra-se em Malaquias 3:8-10.

Nessa passagem, Deus acusa Israel de roubá-Lo nos dízimos e nas ofertas, chama a nação ao arrependimento e promete derramar bênçãos sobre aqueles que fossem fiéis.

À primeira vista, esse texto parece encerrar qualquer discussão sobre o assunto.

Entretanto, é importante observar o contexto em que essa mensagem foi proclamada.

Malaquias dirige sua profecia ao povo de Israel, que ainda vivia sob a antiga aliança. O templo continuava em funcionamento, o sacerdócio levítico permanecia ativo e todas as determinações da Lei mosaica continuavam em vigor.

Por isso, a exortação do profeta está diretamente relacionada ao pacto estabelecido entre Deus e Israel.

A questão, portanto, não é diminuir a importância dessa passagem, mas verificar se a mesma obrigação foi reafirmada para a Igreja após a morte e a ressurreição de Cristo.

É justamente a partir dessa pergunta que a discussão chega ao Novo Testamento.

O ensino de Jesus sobre o dízimo

Ao chegar ao Novo Testamento, uma das passagens mais citadas nesse debate é Mateus 23:23. Nela, Jesus repreende os escribas e fariseus, dizendo:

"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas."

Para muitos, essa declaração seria suficiente para demonstrar que o dízimo continua sendo obrigatório para todos os cristãos.

Entretanto, uma leitura atenta do contexto conduz a outra conclusão.

Quando Jesus pronunciou essas palavras, a antiga aliança ainda estava em vigor. O templo permanecia funcionando, os sacerdotes continuavam exercendo seu ministério e os sacrifícios prescritos pela Lei ainda eram oferecidos regularmente. A Nova Aliança seria estabelecida somente por meio da morte de Cristo, conforme o próprio Senhor declarou ao instituir a Ceia (Mateus 26:28). A Epístola aos Hebreus reforça esse entendimento ao afirmar que a nova aliança entrou em vigor mediante o sacrifício de Cristo (Hebreus 9:15-17).

Isso significa que Jesus estava falando a homens que ainda viviam sob as exigências da Lei mosaica.

Sua repreensão, portanto, não tinha como objetivo estabelecer um mandamento para a futura Igreja, mas denunciar uma religiosidade que valorizava o cumprimento rigoroso de detalhes da Lei enquanto negligenciava aquilo que Deus realmente desejava.

Os fariseus eram extremamente cuidadosos ao separar o dízimo até das menores ervas utilizadas como tempero. No entanto, deixavam de lado aquilo que Jesus chamou de "os preceitos mais importantes da Lei": a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

A crítica de Cristo não era dirigida ao ato de dizimar, mas ao formalismo religioso que colocava a prática externa acima da verdadeira obediência a Deus.


O que muda com a Nova Aliança?

A partir da morte e da ressurreição de Cristo, a Bíblia apresenta uma mudança significativa na relação entre Deus e Seu povo.

A Epístola aos Hebreus ensina que muitas instituições da antiga aliança eram figuras e sombras que apontavam para Cristo (Hebreus 9–10). Da mesma forma, Paulo afirma que as prescrições cerimoniais da Lei encontraram seu cumprimento em Cristo (Colossenses 2:14-17) e adverte os cristãos da Galácia contra o retorno às práticas pertencentes ao antigo sistema (Gálatas 4:8-11).

À luz desse panorama bíblico, conclui-se que o dízimo, tal como foi instituído na Lei de Moisés, fazia parte de um conjunto de instituições ligadas ao sacerdócio levítico, ao templo e ao sistema sacrificial de Israel.

Isso não significa que os princípios espirituais presentes no Antigo Testamento tenham sido anulados.

O que muda é a forma como esses princípios são vividos na Nova Aliança.

Se antes o sustento do culto estava vinculado à estrutura da Lei mosaica, agora o Novo Testamento apresenta outra base para a contribuição cristã: a graça de Deus manifestada em Cristo.


E quanto a Hebreus 7?

Outra passagem frequentemente utilizada para defender a continuidade do dízimo é Hebreus 7, onde o autor recorda que Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque.

À primeira vista, esse texto poderia parecer uma reafirmação da prática para a Igreja.

Contudo, ao analisar o capítulo em seu contexto, percebe-se que seu objetivo é outro.

O autor de Hebreus utiliza o episódio de Abraão e Melquisedeque para demonstrar a superioridade do sacerdócio de Cristo em relação ao sacerdócio levítico.

Ao mostrar que Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque e que Levi ainda estava, por assim dizer, "nos lombos de Abraão", o argumento conduz à conclusão de que o sacerdócio representado por Melquisedeque é superior ao sacerdócio de Arão (Hebreus 7:1-10).

O foco da passagem não está na regulamentação da contribuição cristã.

Seu propósito é exaltar o sacerdócio eterno de Cristo.

Por essa razão, Hebreus 7 não é apresentado como um texto destinado a estabelecer o dízimo como mandamento para a Igreja, mas como uma demonstração da superioridade de Cristo sobre o sistema sacerdotal da antiga aliança.


O princípio permanece, mas a obrigação legal não

Nesse ponto, é importante fazer uma distinção.

Concluir que o Novo Testamento não impõe o dízimo como obrigação legal não significa afirmar que o cristão esteja livre de qualquer responsabilidade em relação à obra de Deus.

Os princípios espirituais presentes desde o Antigo Testamento permanecem válidos.

As Escrituras continuam ensinando que Deus é o Senhor de todas as coisas, que o cristão é apenas administrador dos recursos que recebeu e que aqueles que servem ao Reino devem ser sustentados pelo povo de Deus.

O que deixa de existir é a obrigação legal vinculada ao sistema da antiga aliança.

Essa distinção evita dois extremos.

O primeiro consiste em transformar o dízimo em uma exigência obrigatória para todos os cristãos, como se a Igreja ainda estivesse sujeita às mesmas determinações dadas à nação de Israel.

O segundo extremo é imaginar que, por não existir essa obrigação legal, o cristão esteja dispensado de contribuir para a obra de Deus.

Considerando o conjunto das passagens analisadas até aqui, nenhuma dessas posições reflete adequadamente o desenvolvimento do ensino bíblico.


A contribuição na Nova Aliança

Ao tratar especificamente da vida da Igreja, o Novo Testamento desloca o foco da discussão.

Em vez de estabelecer um percentual fixo para todos os cristãos, os apóstolos dirigem a atenção para a disposição do coração.

Paulo escreve:

"Cada um contribua segundo tiver proposto no coração; não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama a quem dá com alegria." (2 Coríntios 9:7)

Nesse contexto, a expressão "por necessidade" aponta para uma contribuição motivada pela obrigação ou pela imposição externa, em contraste com uma oferta realizada de maneira voluntária e consciente.

Isso não significa que a contribuição tenha se tornado opcional.

Ao contrário, o Novo Testamento continua convocando os cristãos à fidelidade e à generosidade.

A diferença está no fundamento dessa prática.

Enquanto, na antiga aliança, o dízimo fazia parte da legislação dada a Israel, na Nova Aliança a contribuição passa a ser apresentada como fruto da graça, da gratidão e da transformação produzida por Cristo.

Essa mudança prepara o terreno para compreender como a igreja primitiva viveu esse princípio na prática.

Como a igreja primitiva colocou esse princípio em prática

Ao observar a vida da igreja primitiva, chama a atenção o fato de que o Novo Testamento não registra qualquer determinação apostólica impondo o dízimo como obrigação para os cristãos.

Em vez disso, o destaque recai sobre uma comunidade marcada pela generosidade.

Em Atos 2:44-45, Lucas relata que os primeiros cristãos tinham tudo em comum e repartiam seus bens conforme a necessidade de cada um. Pouco depois, em Atos 4:32-37, ele volta ao mesmo tema, mostrando que muitos vendiam propriedades e depositavam o valor aos pés dos apóstolos para que fosse distribuído aos necessitados.

Esses relatos não estabelecem um novo modelo obrigatório de contribuição. O que eles revelam é o espírito que caracterizava a igreja nascente. O foco não estava em cumprir um percentual determinado, mas em colocar os recursos a serviço do Reino de Deus e do próximo.

O mesmo princípio aparece no exemplo da viúva pobre (Lucas 21:1-4). Jesus não elogia o valor da oferta, mas a disposição do coração daquela mulher, que entregou tudo o que possuía para viver.

Da mesma forma, Paulo destaca o testemunho das igrejas da Macedônia (2 Coríntios 8:1-3). Mesmo enfrentando severas dificuldades financeiras, aqueles irmãos contribuíram com liberalidade, chegando, segundo o apóstolo, "além das suas posses". Sua generosidade não nasceu da obrigação, mas da alegria produzida pela graça de Deus.

Esses exemplos mostram que o Novo Testamento desloca a ênfase da contribuição de uma exigência legal para uma resposta espontânea de amor, gratidão e compromisso com o Reino de Deus.


O sustento da obra de Deus permanece

A mudança da antiga para a Nova Aliança não elimina a responsabilidade da Igreja de sustentar a obra de Deus.

O apóstolo Paulo ensina que aqueles que se dedicam à pregação do Evangelho têm o direito de viver do Evangelho (1 Coríntios 9:3-14). Assim como os levitas eram sustentados no Antigo Testamento para exercerem seu ministério, aqueles que servem ao Evangelho também devem receber o apoio da igreja.

Além do sustento pastoral, o Novo Testamento apresenta a contribuição cristã como instrumento para atender às necessidades dos irmãos, apoiar a expansão missionária e cooperar com o avanço do Reino de Deus.

A questão, portanto, não é se a Igreja deve ou não contribuir, mas sobre qual fundamento essa contribuição deve ser realizada.

Enquanto a antiga aliança estabelecia normas específicas para Israel, a Nova Aliança convida cada cristão a contribuir como expressão de gratidão pela graça recebida em Cristo.


Mais do que discutir um percentual, a Bíblia aponta para o coração

Ao longo da discussão sobre o dízimo, é comum que a atenção se concentre na seguinte pergunta:

"O cristão deve entregar exatamente 10%?"

Entretanto, à medida que o tema se desenvolve nas Escrituras, percebe-se que o Novo Testamento conduz a reflexão para uma questão ainda mais profunda.

Em vez de perguntar apenas quanto deve ser entregue, o cristão é chamado a refletir sobre como administra tudo aquilo que Deus colocou em suas mãos.

Quando a contribuição é reduzida a uma obrigação financeira, existe o risco de perder de vista seu verdadeiro propósito.

Por outro lado, utilizar a liberdade da Nova Aliança como justificativa para contribuir cada vez menos ou negligenciar o sustento da obra de Deus também não encontra respaldo no ensino apostólico.

A mordomia cristã envolve reconhecer que tudo pertence ao Senhor.

Assim, a contribuição deixa de representar apenas uma parte da renda e passa a fazer parte de uma vida inteira dedicada a Deus.


O coração do ofertante

Desde o Antigo Testamento, Deus demonstra interesse não apenas na oferta apresentada, mas principalmente na disposição daquele que oferta.

Os profetas denunciaram diversas vezes a prática de uma religiosidade exterior desacompanhada de justiça, fidelidade e obediência.

Esse princípio permanece na Nova Aliança.

Ao ensinar sobre a contribuição cristã, Paulo afirma:

"Cada um contribua segundo tiver proposto no coração; não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama a quem dá com alegria." (2 Coríntios 9:7)

A oferta cristã não deve ser motivada pelo medo, pela culpa ou pela tentativa de conquistar o favor de Deus.

Ela nasce da gratidão de quem reconhece que tudo pertence ao Senhor e que administrar bem os recursos recebidos também faz parte da vida de adoração.

Sob essa perspectiva, contribuir deixa de ser apenas um dever religioso e torna-se uma expressão prática de fé, confiança e amor por Deus.


Conclusão

Ao acompanhar o desenvolvimento desse tema ao longo das Escrituras, desde os patriarcas até o ensino dos apóstolos, a conclusão apresentada neste artigo é que o dízimo, como mandamento pertencente à Lei de Moisés, estava inserido no contexto da antiga aliança, ligado ao sacerdócio levítico, ao templo e à organização religiosa e social de Israel.

Com a vinda de Cristo e o estabelecimento da Nova Aliança, o Novo Testamento não reafirma essa obrigação para a Igreja.

Isso, porém, não significa que a responsabilidade do cristão em relação à obra de Deus tenha diminuído.

Pelo contrário.

A Nova Aliança amplia essa responsabilidade ao ensinar que toda a vida pertence ao Senhor. Em vez de estabelecer um percentual obrigatório, o Novo Testamento chama cada cristão a contribuir voluntariamente, com alegria, generosidade e responsabilidade, sustentando aqueles que servem ao Evangelho, socorrendo os necessitados e cooperando para a expansão do Reino de Deus.

Assim, a questão central deixa de ser a obrigatoriedade de uma porcentagem específica e passa a ser a fidelidade do coração diante de Deus.

A contribuição cristã não é apresentada como um meio de obter o favor divino, mas como uma resposta de gratidão à graça manifestada em Cristo.


Nota ao leitor

Este artigo apresenta uma síntese dos estudos que serviram de base para esta reflexão. Como o tema do dízimo é amplamente debatido entre os cristãos, recomendamos a leitura integral dos materiais disponibilizados abaixo para que o leitor conheça, de forma mais aprofundada, os argumentos, o contexto bíblico e o desenvolvimento completo dessa análise.

Material Completo: Voltemos ao EvangelhoLivro "Dízimo - Por Angelo Jonatan"

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato